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Vaqueanos?

Lendo a literatura sobre a Guerra do Contestado, sejam livros ou relatórios dos militares combatentes ou depoimentos, sempre se depara  com o termo “vaqueano”. Nome dado somente aqueles que combateram apoiando as tropas legais, os militares. Entretanto nos processos que alguns foram submetidos, mas não condenados, são denominados de “tropas civis federais”.

 

 

Alguns autores notadamente surgidos, após Vinhas de Queirós, notadamente maniqueístas, os denigrem de forma assustadora, afirmando que massacraram inocentes, que sofreram processos na justiça. Mas não concluem que foram inocentados nestes processos.

 

 

O capitão Tertuliano Potiguara, homem de inolvidável coragem, que comandou e combateu, extinguindo o principal e maior reduto jagunço, o de Santa Maria, afirma em seu relatório final, que sem a participação dos vaqueanos, que foram a vanguarda dos combatentes, ou seja aqueles que iam na frente, liderados pelos seus respectivos chefes, não teria sido possível a vitória das tropas legais.

 

 

Mas ainda permanece a pergunta “o que eram vaqueanos”? Conhecendo alguns daqueles que combateram no Contestado, a sua personalidade e estilo de vida que possuíam em comum:  coragem, cavaleiros muito hábeis, práticos nas lida com o gado, além de excelentes atiradores, sempre vestidos de bombacha, guaiaca, lenço, botas com esporas, chapéu de aba larga e grande apreciadores do mate, como podem então ser definidos?

 

 

Devemos lembrar que quando o  !3° Regimento de Cavalaria da Guarda Nacional, comandado pelo Cel. João Pacheco, em janeiro de 1894,  quando no combate do Rio da Várzea, pois para correr a tropa de Juca Tigre, estes alegariam mais tarde, que haviam sido surpreendidos por uma tropa que se vestia igual a eles: bombacha, lenço, chapéu de aba larga……..

 

 

A resposta a esta indagação encontramos no extenso trabalho de Moacyr Flores (historiador rio-grandense que possui mais 20 livros publicados e é especialistas na Revolução Farroupilha), que recebe o nome de O MITO DO GAUCHO do qual citaremos algumas linhas a seguir:

 

 

Quando faz uma revisão de toda a literatura, citando inúmeros autores,  descreve os habitantes da campanha do Rio Grande do Sul, seja ela escrita por romancistas ou relatos de visitantes estrangeiros. Dentre estes visitantes estrangeiros, devemos destacar o relato de Auguste de Saint-Hilaire, que esteve na província do RGS em 1820, no qual descreve o gaúcho como bandido, marginal, pilhador, indivíduos sem pátria que combatem pelo saque. Outro visitante estrangeiro Nicolau Dreys, em 1839  relatou  que o gaúcho já estava mudando, mas se reunia em grupos de pessoas sem lei e sem moral, formando uma sociedade agine(sem mulheres).Afirmou que para felicidade dos povoados e das estancias os gaúchos  não gostavam de mulheres…..

 

 

Em  1949 o médico José Antonio do Vale Caldre e Fião publicou  na capital do império um folhetim O CORSÁRIO, inserindo termos  e acontecimentos regionais. O herói é o vaqueano que se veste a monarca, que significa a maneira campeira. Monarca é o bom campeiro. Já o termo gaúcho indica indivíduos mal afamados e mal encarados.

 

 

De 1867 a  1874 Apolinário Porto Alegre, publicou cinco contos que pertencem ao ciclo vaqueano, do campeiro e do monarca das coxilhas. Em  1872  escreve o livro  O VAQUEANO, como resposta ao livro escrito por José de Alencar em 1870, que tinha por titulo O GAÚCHO. O vaqueano simboliza o herói indomável em busca da vingança pela morte dos pais.

 

 

Mas no ano de 1877, Luis Alves de Oliveira Belo publica o livro Os Farrapos, onde o monarca das coxilhas passa a ser chamado de gaúcho.

 

 

A partir de então começa a surgir o mito do gaúcho,  esta revisão de Moacyr Flores, ainda cita inúmeros outros autores que confundem o vaqueano com o gaúcho, sendo que muitos deles pouco tempo tinham estado nos campos e conhecido a fundo a vida campeira e assim o surgimento do mito do guacho coincide ou é um fruto do Romantismo, o que se firmará com o movimento Modernista, com seu nacionalismo verde amarelo. E assim o sul-rio-grandense virou gaúcho, mesmo que tivesse nascido na cidade, sem nunca antes ter montado um cavalo e muito menos laçado uma rês. E o termo vaqueano se perde.

 

 

Até mesmo a indumentária e uso do cavalo, é interpretada por Manoelito de Ornelas, como de origem arábe, ao qual  chega a afirmar que o chiripa de origem indígena, é de origem arábe. Quem não conhece o assunto pode até incorrer no erro de concordar.

 

 

Mas analisando a iconografia de visitantes estrangeiros, como a gravura feita por Thomas Ender em 1817 abaixo,  podemos dizer é um gaúcho? Não é um tropeiro paulista! Thomas Ender foi um pintor austríaco que deve ser incluído entre os chamados pintores viajantes, ou seja, aqueles que vieram ao Brasil a partir da época do príncipe regente D. João VI até os últimos anos do século XIX.

 

Tropeiro paulista com poncho (Gravura de Tomas Ender , 1817).

O que podemos afirmar é que o estilo de vida campeiro no Sul tinha o mesmo estilo, seja no interior de São Paulo, no Sul do Paraná , Santa Catarina e  na campanha rio-grandense, e que a indumentária permaneceu no Rio Grande do Sul, devido ao isolamento da região por algum tempo e pela atividade exclusiva da criação extensiva de gado.

O mesmo ocorre com a foto de 1918 de Margarida dos Santos, ex-escrava nascida na Lapa-PR, que viveu em Três Barras, muitos que não conhecem o titulo da foto, dizem: mas esta é uma foto de uma baiana! Não é uma foto de uma afrodescendente com todos os seus adereços e vestimentas do Brasil do século XIX, mas que só permaneceu até hoje na Bahia, mas que era usual naquele período em todo o Brasil.

 

 

Margarida dos Santos, ex-escrava, em seu colo  Alceu Fontana Pacheco neto de Benvindo Pacheco (Três BarrasSC).

 

 

Autor: Pedro Pacheco, Eng.M.Sc. , Dr.

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